03.01.10
23:46

Após o almoço híbrido de pratos japoneses, brasileiros e árabes perguntamos a um casal sobre as ocupações nas margens do rio, disseram que os moradores já haviam sido realocados da favela da marinha e não nos aconselharam ir até o local devido aos contrabandistas. Percorremos então o caminho até o terminal pelas ruas próximas ao rio Paraná.
Do terminal fomos até a Vila “C”, criada no tempo das construções de Itaipu para abrigar os “peões” – ou seja, pessoas que pegavam no pesado para levantar a usina.
Vila “C” é um dos bairros mais distantes do centro de Foz do Iguaçu e o mais próximo da Hidrelétrica. Adentrando o bairro, logo observamos a arquitetura peculiar das residências padronizadas, com estrutura do telhado em forma abaulada, como galpões. Em sua origem, uma mesma construção dividia-se em vários lotes e abrigava até quatro famílias. Pouco a pouco estas construções se singularizam pelas ocupações e suas histórias.
Descemos do ônibus com sede, uma quadra depois localizamos um negócio aberto. Logo percebemos que as pessoas que ali estavam poderiam contar histórias sobre o lugar. Tekão, Juca, Gealmir, Aguirras e sua esposa, moradores desde a década de 70. Foram quatro horas ouvindo suas histórias. Algumas delas documentadas em vídeo.
A infância, o banho em água dourada e o caminhão pipa. As transformações do lugar – ‘Foz do iguaçu não era nada’ – construção de Itaipu, o caminhão ‘pega-corno’ trazendo pessoas de todos os lugares do Brasil. A valeta de 5 metros de profundidade – controle da vila. A façanha da colheita de alface e o caminho para casa. As canções, mágicas e murais – Roberto Carlos é loiro. A receita de sabão que a vila inteira produz e dá uma coceira. A colher gigante entalhada em Caqui Chocolate (a melhor para fazer sabão), a intoxicação nas plantações do Paraguai – 8% de vida, entre muitas outras…
Na volta passamos pela monumentalidade das muitas torres de alta tensão que partem da usina de Acaray no Paraguai com um destino distante da Vila “C” e por incrível que pareça o bairro é alimentado por uma rede de energia paraguaia, dizem, a energia mais cara do Brasil.
Trânsito à margem do lago – Blog integrante da Rede Kuai Tema de Pontos de Cultura
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